28 março, 2010

Sobre o hábito da leitura


A leitura é uma atividade quase integral na vida das pessoas que se preocupam com seu crescimento pessoal. É fundamental aprender a ler direito, isto é, escolher bem o que -- e quem -- se lê, e também como se lê.

Quero compartilhar nesse espaço algumas citações de dois pensadores que me ensinaram muito sobre como ler: o filósofo americano Allan Bloom, e o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. As obras -- recomendadíssimas -- de onde foram extraídas as citações são respectivamente: O declínio da cultura ocidental e Sobre o ofício do escritor.


Comecemos por Allan Bloom. Ele é quem me ensinou o valor da "literatura em grande estilo".


O refinamento do espírito que permite ver as delicadas diferenças entre os homens, entre seus atos e seus pensamentos e que constitui o verdadeiro bom gosto, é impossível sem o auxílio de literatura em grande estilo. (pg. 77)




Sem literatura nenhuma observação do gênio é possível e lá se vai a bela arte da comparação. (pg. 81)



... a falta de leitura de bons livros enfraquece a visão e, ao mesmo tempo, reforça a mais fatal tendência humana: a de crer que tudo o que existe é o aqui e agora. (pg.81)


Arthur Schopenhauer escrevia sobre coisas práticas, como sobre o ofício do escritor (também escreveu sobre como lidar com as mulheres. Não recomendo, especialmente para as mulheres), que é indissociável da prática da leitura.


.... o escasso tempo destinado à leitura deve ser exclusivamente dedicado às obras dos maiores espíritos de todos os tempos e de todos os povos, que sobressaem em relação ao restante da humanidade e que são assim designados pela voz da glória. Apenas estes instruem e ensinam realmente. (pg.101)



Portanto, devem-se ler, se possível, os autores verdadeiros, os fundadores e inventores das coisas, ou ao menos os grandes mestres reconhecidos da área, e preferir em segunda mão os livros, e não seu conteúdo. (pg.9)



Um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor. (pg.11)



Se, ao contrário, lê-se continuamente, sem mais tarde pensar a respeito do que se leu, o conteúdo da leitura não cria raízes e, na maioria das vezes, perde-se. (pg.97)



Como as pessoas lêem sempre apenas as novidades em vez das melhores obras de todos os tempos, os escritores permanecem no âmbito restrito das idéias circulantes, e a época afunda cada vez mais na própria sujeira. (pg.101)



Todo e qualquer livro importante deve ser lido duas vezes seguidas; em parte porque as coisas são compreendidas com mais facilidade em seu contexto quando lidas pela segunda vez e porque só se entende de fato o início depois de se conhecer o fim; em parte porque, a casa trecho, a segunda leitura fornece um efeito e um estado de espírito diferentes dos que se sentem na primeira, fazendo com que a impressão resulte distinta; é como ver um objeto sob outra iluminação. (pg.105)

30 setembro, 2009

Dois tipos de escritor

Faz parte dos meus objetivos de vida desenvolver a habilidade de escrever ao máximo possível. Tendo isso em vista, iniciei a leitura de Sobre o ofício do escritor, de Arthur Schopenhauer, editora Martins Fontes. Já de início, nas três primeiras linhas do livro, grandes expectativas se acenderam do que estava por vir.


"Antes de tudo, há dois tipos de escritor: os que escrevem por amor do assunto e os que escrevem por escrever." pg.3.


Achei perfeita essa divisão. Mais adiante ele observa:


"Só quem é movido exclusivamente pela causa que lhe interessa escreve o que é digno de ser escrito." pg.4.


Tão logo você percebe que o livro que você está lendo foi escrito por um escritor do segundo tipo, aconselha Schopenhauer, deve-se se "desfazer do livro, pois o tempo é precioso."

09 setembro, 2009

Para eu não me esquecer

Um dia, quando Ben Franklin era jovem inexperiente, um "old Quaker Friend" chamou-o de parte e fustigou-o com algumas verdades ferinas, alguma coisa parecida com o seguinte:

"Ben, você é impossível. Suas opiniões possuem sempre uma ofensa qualquer para os que delas diferem. Tornaram-se tão desagradáveis que ninguém as procura. Seus amigos divertem-se mais quando você não está presente. Você conhece tanta coisa que as outras pessoas nada lhe podem dizer. Deste modo, ninguém ousa experimentar, pois o esforço o levará apenas a um trabalho penoso e desagradável. Por isso, você não tem probabilidade de conhecer nada mais do que já conhece agora, o que, diga-se de passagem, ainda é bem pouco".

Uma das coisas mais notáveis que conheço sobre Ben Franklin foi o modo pelo qual ele recebeu esta sábia repreensão. Foi bastante grande e bastante sábio para compreender que tudo aquilo era verdade, vendo que estava sendo levado para um fracasso e para um desastre social. Assim, transformou-se por completo. -- Dale Carnegie, Como fazer amigos e influenciar pessoas.

04 setembro, 2009

O Beija-flor



Hoje vi um beija-flor. Subitamente um enorme senso de admiração -- quase inveja -- tomou conta de mim. A graciosidade e precisão de seus movimentos me lembraram a Primavera de Vivaldi. Sua estabilidade em vôo fazia um monge budista parecer um inquieto hiperativo. A incrível velocidade de seu bater de asas embaralhavam caprichosamente os fótons de luz, dissolvendo-as no ar, ficando invisível ao radar de meus impotentes olhos. Seu bom gosto é indiscutível, se veste escandalosamente bem. É cavalheiro o suficiente para beijar as mais lindas flores sem lhes causar dando. Inigualável Beija-flor.

29 agosto, 2009

Perfeita Felicidade


"A perfeita felicidade dos homens sobre a terra (se ela um dia acontecer) não será uma coisa plana e sólida, como a satisfação dos animais. Será um equilíbrio exato e perigoso; como o equilíbrio de um romance desesperado. O homem precisa ter a medida exata e suficiente de fé em si mesmo para ter aventuras; e ter a medida exata e suficiente de dúvida de de si mesmo para desfrutá-las." G. Chesterton, Ortodoxia, pg.188.

27 agosto, 2009

Sobre a Franqueza

Certo dia eu estava preocupado com meu excesso de franqueza. Comecei então a imaginar se por sete dias todos os pensamentos de todas as pessoas fossem audíveis como a voz. O que você acha que ocorreria? Que precauções você tomaria ao sair pela rua, ao tomar um ônibus cheio ou durante uma conversa com conhecidos? Sinceramente, acho que tamanha seria a confusão que faria com que todos quisessem ficar em casa durante esses sete dias, exceto, talvez, os psicólogos e os ladrões de senhas bancárias. (Você acha que em um desses dias o Sarney daria alguma entrevista? Acho que nem pra falar de futebol...)

Os evangelhos dizem que Jesus conhecia os pensamentos das pessoas, nesse sentido talvez fosse assustador ficar perto dele. Não dava pra ser fingido, não dava pra mentir, ele saberia. A coisa era mais complexa. Jesus tinha o costume de revelar abertamente os pensamentos do seus interlocutores durante a conversa. É bem interessante olhar essas cenas. A multidão pergunta "Mestre, quando chegaste aqui?" (do outro lado do mar), a resposta de Jesus? Leia: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais milagrosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos." (João 6:25 e 26, NVI) Acho que Jesus sabia o suficiente de natureza humana para prever a reação às suas palavras, mas ele falou mesmo assim. Fico me perguntando até onde isso é aplicável a mim considerando aquela máxima cristã de "o que Jesus faria em meu lugar?". Tenho medo de minhas conclusões.

24 agosto, 2009

Idéia Hiper-ativa

"Com efeito,um dia de amanhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te." Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap II.

Ainda leio o Machado ...