Lendo um prefácio de livro, me deparei com a seguinte confissão:
O leitor dessas páginas não deve ter a esperança de encontrar uma justificação pormenorizada de todas as palavras usadas . No exame dos problemas gerais da cultura, somos constantemente obrigados a efetuar incursões predatórias em regiões que o atacante ainda não explorou suficientemente. Estava fora de questão, pra mim, preencher previamente todas as lacunas de meus conhecimentos. Tinha que escolher entre escrever agora ou nunca mais; e optei pela primeira solução. (Johan Huizinga, em Homo Ludens, 1938)
Eu pessoalmente gostaria muito de ter uma mente que captasse a essência do movimento do mundo natural em três simples leis como fez Isaac Newton, e que se necessário inventasse uma nova matemática só resolver meus os próprios problemas. Simultaneamente gostaria de escrever com a sagacidade de um Machado de Assis, construir mundos como Aldous Huxley, ter uma visão ampla da História como um Arnold Toynbee, um Jacques Barzun, conhecer os fundamentos da Bioquímica e da Genética, estar a par das raízes do comportamento humano, seus condicionamentos e os efeitos do meio nesse comportamento. Queria de capaz de propor tratados sociais que resolvessem o problema da humanidade em maximizar a experiência de sua existência, proporcionando bem-estar coletivo ótimo ao mesmo tempo que toda a potencialidade humana fosse explorada. Isso pra citar só alguns desses sonhos intelectuais.
Tomas de Aquino talvez tenha, em sua sede de saber, entrado em contato com todo o conhecimento disponível de seu tempo. Hoje tão façanha é impossível. Parece impossível mesmo que alguém domine todo o conhecimento de sua área. Entre físicos riríamos de quem dissesse dominar todo conhecimento de Física produzido até hoje e o conduziríamos ao hospício mais próximo.
Tenho amigos que escolheram se especializar em diferentes áreas do saber: Biologia, Medicina, Química, Estatística, Informática, História, Ciências Políticas, Literatura Francesa, Linguística ... e claro, para minha tristeza a comunicação entre nós é sempre limitada. Já fico angustiado que nenhum de nós tenha noção das respostas que cada ramo do conhecimento tenha para diversas perguntas, contudo fico ainda mais angustiado por não termos noção das perguntas que o outro faça. É evidente que uma educação fragmentada tem destruído a curiosidade de inúmeras pessoas que apenas olham para o amigo e pensam "não é da minha área". Mas o universo é da nossa área.
Outro dia invejei o conquistador grego Alexandre e desejei ter meu próprio Aristóteles como tutor. Meu Aristóteles, tal como o original, deveria ser um homem inteligente e culto, profundamente curioso, que tivesse mergulhado no oceano dos conhecimentos atuais, navegando pelos mares da Filosofia, das Ciências da Natureza e Ciências Humanas. Com toda a bagagem obtida, meu Aristóteles do século XXI estaria plenamente apto para me guiar. Ele indicaria as perguntas mais importantes que eu deveria fazer, os livros que deveria ler primeiro e me ajudaria a edificar uma plataforma fundamental de conhecimentos tal que eu fosse capaz de prosseguir, de modo autônomo, com minha própria educação.
Mas que nunca, não seria urgente ambicionar a construção de novos Aristóteles? Pessoas que nos impeçam de nos prender em alguns fios da teia do conhecimento, e que nos apresente a beleza do todo?
Mas como se constrói um moderno Aristóteles? Não sei em que medida esse empreendimento possível, mas meu interesse pessoal é descobrir.